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São Romão
Acrílica e nanquim sobre tela
2008
esta pintura foi um presente para minha querida amiga  Maria do Boi, 
ou Dona Maria do Batuque, ou Maria da Conceição Gomes de Moura, 
que, ainda que sem me conhecer direito quando cheguei por lá, 
sempre me recebeu  e hospedou tão bem  em sua casa
 em São Romão, Minas Gerais (eterna gratidão e amizade)
#SãoRomão

publicado no livro Batuquim vai abaixo? Ele não vai não ,
lançado em 2008 pela Jardim Produções
Lei Estadual de Incentivo à Cultura, MG

detalhes
DESPEDIDA DA QUERIDA DONA MARIA DE MOURA
A DONA MARIA DO BATUQUE DE SÃO ROMÃO
Hoje a nossa Dona Maria virou estrela. Partiu deixando um grande legado da cultura popular mineira, o batuque de São Romão, com seu boi de reis, as catirinas, o elefante que dança, o macaco, as dançadeiras, os tambores e roncadores de tronco escavado.
Nossa amiga querida, nossa mestra preta da beira do São Francisco, trabalhadora de roça e batalhadora de uma vida como a que leva tanta gente nossa, ganhando quase nada mas oferecendo muito, sabendo comemorar, com festa, cada conquista, cada amizade, cada pequena alegria. Tantas foram as cartas que mandei pra ela. Tantas fitas gravadas. Tantos anos e aprendizados debaixo do pé de siriguela, do pé de manga, na beira do fogão da casinha azul. Tantos bois que ajudamos a fazer, pra sair com a meninada correndo atrás, falando dos lobisomens e sacis e assombrações que existem sim, de verdade, lá por aquelas bandas.
Tantas ilustrações que fiz pro livro que mais tarde foi produzido por outros amantes da cultura brasileira, para imortalizar a história dessa mestra. Até pintura eu fiz sobre essa mulher guerreira, brava e doce. Foi um presente pra ela. A pintura ainda está lá, eternizando Dona Maria, sua arte e sua cidade, com a gente junto. Ficou decorando as paredes da casa simples e acolhedora, que ela mesma desenhou, riscando no chão com um pedaço de pau, a sua arquitetura.
Lembro do dia em que a gente a conheceu, com suas dançadeiras e seus tocadores de tambor, num dia de danças “folclóricas” de agosto, numa praça de Belo Horizonte. Tiramos muitas fotos, conversamos com ela. Engraçada, bem humorada. Dissemos que iríamos “aparecer” em sua, casa, no norte de Minas, qualquer dia, para levar as fotos.
Aparecemos mesmo. De mala e cuia, como se diz. Despencamos em São Romão, pra lá de Pirapora, nas lonjuras de Minas Gerais! Muitas horas no ônibus e outras tantas na rodoviária de Pirapora, esperando o único transporte, que uma vez por dia, fim de tarde, pegava a longa estrada de terra até a balsa, que atravessava o Rio São Francisco e levava a São Romão. Cidade remanescente de quilombo, cultura preservada da África, misturada às coisas nascidas aqui. Tudo isso fazia parte dessa pessoinha enorme que era Dona Maria. De Moura! Como Eu. Dona Maria da Conceição de Moura. Depois, pesquisando aqui e ali, soube que a família Moura, da qual faço parte, veio de Pernambuco, passou por São Romão, e foi parar em Morada Nova de Minas, cidade natal da minha mãe. Certamente algum laço me une à Dona Maria, para além da amizade conquistada. Agora ela se encantou e um pedaço de mim também ficou encantado. Encontros. Encantos da vida.
Quando chegamos em São Romão, Dona Maria nos hospedou em sua própria casa. Quintal largo de terra batida, árvores frutíferas e maritacas aos montes. Desde a primeira vez, escolheu o melhor quarto da casa pra nós. Soube uma vez que pendurou conta no açougue pra oferecer pra gente um pouco de carne com arroz de pequi, coisa que pra ela própria era luxo, com sua pequena pensão mensal de aposentadoria. Hospitalidade de nossa gente! Foram muitas visitas. Antes da minha filha Surya nascer, grávida dela, com ela pequena... Depois, com meu filho Ravi, também filho de São Romão, que aos dois anos cantava canções inventadas à beira do São Francisco, enquanto eu e a Surya lavávamos roupa no rio, como as lavadeiras de lá. Saudade das borboletas amarelas e brancas que se amontoavam sobre o sabão deixado nas pedras de bater a roupa. Chamo de borboletas de lavadeira.
Foi uma vivência linda aprender com Dona Maria e seus familiares como se fazia o boi de reis, catando a melhor carcaça de boi nos pastos. Como se cantava cada toada do batuque, os improvisos. Como se fazia o elefante de saco de linhagem. Como se raspava o couro para fazer o tambor. Como se tocava e dançava o batuque, uma dança de fertilidade, em que a umbigada fora substituída por uma batida de ombros e costas, bem peculiar, característica do batuque de lá.
Escrevi todas as letras das suas músicas, que ela, desconfiada e com muito custo, foi ditando e cantando aos pouquinhos, ano após ano, enquanto contava as histórias da sua vida. Imprimi tudo e dei pra ela. Ia enviando com as cartas, com fotos e alguns presentes. Muito brava e desconfiada, aos poucos fomos ganhando sua confiança e amizade. Longa amizade!
Tocamos uma vez com ela, quando voltou à Belo Horizonte para o evento Vozes de Mestres. Surya e Ravi participaram da apresentação. Eram quase netos da nossa pretinha batuqueira, não fosse a longa distância para se ver ainda mais...
Foi ficando mais difícil ir pra lá, com essa nossa vida de artista. Vida que se arrisca. Vida que une, que muda, que segue e que afasta sem perguntar. Vida.
Voltamos uma última vez. Ela, já velhinha e muito fraca, já quase não conseguia tocar. Braço machucado da lida na roça. Do cuidado de anos com o marido doente, que não chegamos a conhecer.
Disse Dona Maria, nessa última vez, que as pessoas que já tinham morrido não deixavam ela em paz. Chamavam, batiam a porta, apareciam por lá. Que ela não queria.
Ensinamos ela a meditar. A fazer banho de pés na bacia com água e sal. Ela gostou.
Acendemos a lamparina. O dia quente, com o ar totalmente parado, subitamente recebeu uma ventania que bateu todas as portas e janelas e apagou repetidas vezes a lamparina. Ela quase adormeceu. Lavei os seus pés do sal da bacia, enxuguei. Dormiu. Os fantasmas foram embora.
Nos dias que se seguiram, ela me chamava baixinho, quando eu entrava pro quarto pra dormir.
_Gisele...
_Que foi Dona Maria?
_Nada não.
_A Senhora quer fazer banho de pés?
_Pode ser. _ ela nunca admitia querer atenção. Mas deixava transparecer nesse seu jeitinho de quem não se importa, seu coração sensível.
_E assim foram nossos últimos dias com Dona Maria, já há alguns anos. Todas as noites ela chamava, querendo mais um cuidado, mais um banho de pés. E eu sempre lavava seus pés, o que ela, já velhinha, não alcançava fazer.
_Os fantasmas já não a assombravam.
_A cada dia de meditação e banho de pés era uma aproximação mais íntima da nossa Dona Maria do Batuque.
Um afago. Um carinho. Aí ela dormia tranquila. Foi uma semana assim.
Nunca mais voltamos a São Romão.
Este ano a Surya disse que queria ir ver Dona Maria. Parece que intuiu. Insistiu. Ano difícil.
Não fomos... não alcançou o tempo. Já era sua hora...
Sempre senti saudade.
Sempre vou sentir saudade.
Sempre estaremos juntos com ela, pois ela foi parte de nós. Ainda é.
Agora ela vai dormir tranquila, mais uma vez. Recarregar pra uma próxima vez.
Dorme em paz, Dona Maria,
E quando a senhora acordar, a gente se encontra pra uma outra brincadeira.

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